quarta-feira, 15 de junho de 2011

O caso do pintor daltônico



SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte: Sete histórias paradoxais. Companhia das Letras, São Paulo, 1995.


O londrino Oliver Sacks nasceu em 1933 e atualmente mora nos EUA onde leciona no Albert Einstein Collegeof Medicine (NY). Dentre seus livros estão: Tempo de despertar (que inspirou o filme homônimo com Robert de Niro e Robin Willians, e a peça A kindof Alaska, de Harold Pinter), Enxaqueca, O homem que confundiu sua mulher com um chapéu, A ilha dos daltônicos e Vendo vozes.



Com sete histórias, o livro “Um antropólogo em Marte” fala de como pessoas pressionadas por situações-limites, podem ajudar-nos a compreender melhor o que somos. Segue abaixo a resenha do texto do capítulo 1, “O caso do pintor daltônico”:



No capítulo “O caso do pintor daltônico”, Oliver Sacks narra o caso do paciente Jonathan I.,um pintor que após um acidente perde sua visão em cores e começa a enxergar o mundo em monocromático. Com um caso excepcional para se aprofundar no estudo de nossa visão das cores, Sacks acompanha os duros percursos por onde segue o pintor e sua adaptação a perde daquilo que mais lhe valia, a cor.



A cor sempre acarretou fascínio à humanidade, sua formação, decomposição e até sentimentos proporcionados, foram desde tempos remotos alvo de pintores, cientistas e grande pensadores. Como cita (Sacks, 1995, p. 22) em:


[...] O jovem Spinoza escreveu seu primeiro tratado sobre o arco-íris; a mais jubilosa descoberta do jovemNewton foi a composição da luz branca; o grande trabalho de Goethe sobre a cor, assim como o de Newton, teve início com um prisma; Schopenhauer, Young, Helmholtz e Maxwell, no século passado, foram todos atormentados pelo problema da cor; e o último trabalho de Wittgenstein foi seu Observações sobre a cor. [...]



Sacks, pela primeira vez, tinha em suas mãos um extraordinário caso no qual podia se aprofundar num estudo sobre a cromática, descreve (Sacks, 1995, p. 22):


[...] Duplamente intrigante é sua ocorrência num artista, um pintor para quem a cor tinha uma importância primordial, e que pode tanto descrever como pintar diretamente o que lhe aconteceu e assim transmitir a totalidade da estranheza, aflição e realidade de sua condição.




Com a acromatopsia cerebral, o paciente Jonathan I., perde o apetite para se alimentar, o prazer pelo sexo e por tudo aquilo que seja cromático, o que agora tinha-lhe aparência repugnante, diz (Sacks, 1995, p. 25) em:


O sr. I. mal podia suportar a nova aparência das pessoas (“como estátuas cinzentas


animadas”), tanto quanto não suportava sua própria aparência no espelho: passou a evitar encontros sociais e a achar impossível uma relação sexual. Via a carne dos outros, de sua mulher e a sua própria, como se fosse de um cinza repulsivo; “cor-de-carne” passou a ser “cor-de-rato” para ele. E isso continuava ocorrendo mesmo quando fechava os olhos, já que sua nítida imaginação visual tinha sido preservada, só que agora igualmente sem cores.



Segundo Sacks, a visão da cor, diferente dos outros estímulos visuais podia ser reproduzida experimentalmente, concentrando impulsos nas células V4 localizados no córtex associativo medial. Porém, não é de estímulos experimentais que se dá visão do mundo real, explica (Sacks, 1995, p. 45) em:


[...]Mas a visão colorida, na vida real, é parte integrante de nossa experiência total, está ligada a nossas categorizações e valores, torna-se para cada um de nós uma parte de nossa vida e nosso mundo, uma parte de nós. [...] É em níveis mais elevados que a integração acontece, que a cor se funde com a memória, com expectativas, associações e desejos de criar um mundo com repercussão e sentido para cada um de nós.



Embora Sacks e seus auxiliares não houvessem descoberto a causa da situação do Sr. I., descobriram que era as áreas V4 que arcaram com o impacto de seu acidente. Três anos após o acidente, sugerem-lhe reaver a visão, diante de saber onde se localizava o problema e da grande possibilidade de cura, mas isto já não importa mais ao Sr. I., relata (Sacks, 1995, p. 55) em:


[...]Nos primeiros meses após a lesão, ele disse, teria aceitado tal sugestão, feito


qualquer coisa para se “curar”. Mas agora que concebia o mundo em outros termos e


novamente o julgava coerente e completo, achou a idéia ininteligível e repulsiva. Agora que a cor tinha perdido suas associações anteriores, seu sentido, não podia mais imaginar com que pareceria sua restauração. Sua reintrodução seria brutalmente confusa, ele pensava, e podia lhe impingir um tumulto de sensações irrelevantes, perturbando a agora restabelecida ordem visual do seu mundo. Estivera por certo tempo numa espécie de limbo; agora tinha se acomodado -- neurológica e psicologicamente -- ao mundo da acromatopsia.



Concordo com os métodos de Oliver Sacks para chegar a seus resultados, não se limitando somente ao fisiológico da situação, mas, dando grande ênfase ao psicológico, que tem parte importantíssima na hora de discernir aquilo que vemos ou que pelo menos em nossa mente é real.



Foto: albena.org



Foto do livro: livrosdownload.com

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