sexta-feira, 20 de julho de 2012

Luz e Magia

Disseminando a pluralidade, a interdisciplinaridade e valores transculturais, transnacionais e transreligiosos de uma cultura de paz, aconteceu de 07 a 15 de Julho de 2012 o XI Revelando São Paulo – Vale do Paraíba. Localizado no Parque da Cidade Roberto Burle Marx, o evento revela as expressões culturais do estado de São Paulo; na edição “Vale do Paraíba”, mais especificamente das cidades do vale e convidadas de outras regiões. Nesses nove dias, as diferentes culturas abrem seus corações em forma de artesanato, culinária, música, dança, folguedo, manifestação, religiosidade e/ou crença.


Caminhando pelo Revelando, passo no estande dos ciganos e converso com Celso Fernandes de 48 anos. Conhecido em seu meio como “Celso Cigano”, além de feiras e eventos, e de participar do setor de artesanato do Revelando, também trabalha como cabeleireiro em sua cidade, Santo André – SP.


Confira o bate-papo com Celso Fernandes:

LB – Conte um pouco sobre a cultura cigana, como você conheceu?

CF – Além de ter meu primeiro casamento com uma cigana de sangue, tendo um filho cigano, eu tive o privilégio de conhecer a outra parte da cultura cigana, as festas, as famílias. É uma cultura onde existem vários clãs, ela é dividida em: Matchuaia, Kalderash, Calon, e essa divisão é feita por quê? 



Segundo a história, os ciganos estavam na Índia. A Índia conheceu muitos perseguidores e dominadores mongóis, por causa de um grande perseguidor da Índia eles foram embora e saiu uma grande leva de povo daquela cidade da Índia, e vieram parar no seu primeiro ponto, que é o Egito. No grande Egito, deixaram um pouco da sua cultura e adquiriram um pouco da cultura deles, das suas cores, porque o Egito é lindo, maravilhoso. Do Egito se dividiram para o mundo, para vários lugares, então, ali surgiam as várias culturas ciganas, essas várias famílias. 


Temos o símbolo da bandeira que é o verde embaixo simbolizando a terra e o que ela nos dá, o azul é a liberdade que o cigano tem de estar, de ir e vir em todos os lugares e a roda da carroça, seus raios simbolizando as famílias que tem, e sempre indo para frente.

Celso Fernandes de 48 anos, conhecido como “Celso Cigano”


Dentro dessa cultura, vou falar, por exemplo, dos Kalderash, que eu tive o prazer de conhecer. Os Kalderash são os ciganos que mexem com cobre, no Brasil são os que enriqueceram mais ou os que têm maior preeminência em valor financeiro. Os Calon são mais religiosos e gostam de usar preto. 

Os Matchuaia são os grandes senhores das músicas, as melhores músicas ciganas vem dos Matchuaia, que são da Iugoslávia. Essa família tem um líder, uma pessoa da família, uma moça veio fazer a leitura numa festa que eu tive o privilégio de fazer, não só fazer. Como eu tive uma influência com um amigo num mercado aqui no Brasil, na época era o Pão de Açúcar, hoje é o Extra, e o gerente permitiu que houvesse uma tenda cigana e eu os trouxe, e eles ficaram. Titio como era conhecido e que era o líder da grande família, o que ele fez? Ele chegou para o Paulo e a Adriana que era o casal que estava vindo na minha festa e disse “Eu quero conhecer esse cigano que vocês estão indo ver”, ai eles ficaram preocupados, me informaram que o Titio gostaria de conhecer-me e foi combinado um Domingo. 

Como eu conheço a cultura e sei que são tradicionais, por exemplo, um homem que usa lenço é um homem compromissado ou casado, então as ciganas só de olhar já sabem que um homem que está de lenço tem compromisso com alguém, ela vai conversar, vai ficar perto, algumas conversam, mas elas já sabem. 



Eu fui com a camisa comprida, bem trajado. Cheguei um pouco atrasado porque me informaram o local errado, de cara ele já dá uma bronca, interessante que no meio de toda a família “Você não sabe o caminho? Porque você ensinou o moço errado?! Não faça mais isso!”. Ele me chamou de lado, na época eu estava vivendo o mundo vegetariano já há dois anos, mas na cultura cigana quando se encontram eles fazem um carneiro e ele estava fazendo um carneiro para mim.

Começou a conversar comigo perguntando da cultura e interessante que as mulheres ficavam de um lado e os homens dos outros, eles não ficavam juntos. Fomos até a churrasqueira, “o primeiro pedaço fica” ele disse, o segundo pedaço do carneiro ele cortou e disse “Cigano, eu fiz um carneiro para comemorar e celebrar a sua visita e você vai fazer parte da nossa família”. 

Quando ele corta o terceiro pedaço eu já pego com a mão e ele diz assim “Estou começando a gostar de você duas vezes, primeiro que o senhor chegou no horário, isso é muito importante, um homem com compromisso porque os ciganos são mal vistos, segundo que o senhor já pegou com a mão, cigano come com a mão”. Comemos o primeiro pedaço, o filho mais velho veio e cortou para todos os homens, e nós comemos, depois ele cortou o carneiro e levou para as respectivas esposas. 

Ele morava numa casa na Vila Rosária, o melhor bairro de Guarulhos numa casa de 400 a 500 metros de área construída com um terreno de 2000 metros, como eles conseguiram essa entre aspas fortuna? Eles vendiam peças de trator, ele pegava as peças e colocava no caminhãozinho dele e ia interior dentro, trocava com as peças dos tratores das pessoas e colocava as novas, trazia, recondicionava e foi vivendo negociando, comprando, vendendo, comprando, vendendo e nisso vendia outras coisas.


LB – Quando você começou a participar de eventos?

CF – Os eventos foi algo muito mágico, eu tinha um amigo que fazia chaveiros e era interessante que eu ia aos eventos, festas ciganas e pegava o chaveiro, e comecei a oferecer. Vamos voltar um pouquinho, eu fazia festas ciganas, como eram as minhas festas? 


Eu fazia uma festa onde a entrada era um preço irrisório, vamos dizer nos dias de hoje R$ 5,00, e o homem trazia um prato de doce e a mulher um prato de salgado, um litro de vinho ou um refrigerante, e é interessante que todos traziam, porque essa entrada irrisória era para pagar o local. E ali eu chamava alguns amigos que eram expositores, que vendiam imagens, roupas ciganas. Eles faziam as barracas deles e eu não cobrava nada, nunca cobrei. 

Eu fazia a festa, porque íamos a festas em que havia muita apresentação, isso atrapalhava, as pessoas não gostavam, então, eu fiz uma festa dessa forma: eu escolhia duas a três apresentações, fazíamos a entrada de Santa Sarah (Protetora do Povo Cigano) e depois a última apresentação, os outros grupos, se apresentavam no outro mês e era só isso de apresentação. E ninguém brigava, todo mundo amava, como até hoje falam “Ow Celso! Porque você não faz aquelas festas, suas festas nós dançávamos a noite toda”.

 
Num momento difícil financeiramente, os alugueis aumentaram demais e eu deixei de fazer as festas, aí eu comecei a frequentar as festas e levava chaveiros, e comecei a oferecer, oferecia para um, oferecia para outro. Era um cigano chileno que me fornecia o chaveiro, eu deixava uma parte para ele e ficava comigo, nisso eu comecei a ver o outro lado da festa que até então eu não via, que foi o lado financeiro que me dava a sustentabilidade ou parcialmente o que eu não conseguia no meu trabalho no dia-a-dia. Não comprar um carro, não é comprar uma casa, mas, por exemplo, comprar alguma coisinha, uma mistura a mais, era você poder falar “Nessa segunda feira eu não vou trabalhar, vou ficar em casa, não vai fazer falta esse dinheiro”. 

Daí eu comecei a frequentar eventos, era interessante que todo mundo fala até hoje “É cigano eu lembro que você ia”, e eu oferecia para todas as pessoas, pessoa a pessoa, como um verdadeiro mascate, oferecia o meu produto, mostrava e depois as pessoas começavam a dizer “Ah! Eu quero um chaveiro, porque eu vi pessoa tal com chaveiro”, muito interessante. 

Com o tempo, comecei a alugar o espaço, como é feito isso? A pessoa vai fazer uma festa, ela pega 20 convites, tem festas que são 10 convites, antigamente era tudo 10, hoje aumentou. Então eram 10 convites, a gente vendia e tinha o espaço, lá dentro eu comecei a colocar os produtos, não tinha dinheiro para comprar, algumas pessoas me forneciam, e o que eu conseguia comprar, eu comecei a revender. Atualmente, o valor é maior, mas hoje dou graças a Deus que quase todos os finais de semana eu participo de festas e nestas festas eu vou para levar os produtos e fornecer.

 
Sinclair, irmão do Celso Cigano


Eu fico muito feliz que o povo fica alegre, por cada coisa que compra, é uma canela, tenho um fornecedor maravilhoso, que traz uma Canela de Java para mim, uma canela da Indonésia, e as pessoas fazem o seu arroz doce, deixam atrás da porta, colocam de enfeite na sua cozinha, me abraçam, me beijam, muito contente com cada coisinha que a gente tem.


Fazemos com muito carinho, lógico que não podemos fazer tudo, que eu não tenho tempo para isso, e quem falar que faz tudo, são pouquíssimas pessoas que fazem, geralmente se compra alguma coisa, tem alguém para ajudar e estou feliz com o pouco que eu faço. 


Outra coisa muito legal que a turma gostou foi as ferraduras. A ferradura foi algo inédito. Eu consegui de uma vez só 300 ferraduras, passamo-as por um processo de areia, depois foi galvanizada e coloquei uma a uma num saquinho lindo, maravilhoso, com canela e uma fita, para a pessoa guardar a fita e amarrar na ferradura. Trabalhamos com a fita verde porque o verde significa a saúde, o vermelho simbolizando o amor e o amarelo, prosperidade. Em dois meses e meio foram todas as ferraduras, então isso me incentivou a continuar, como incentiva até hoje.



Tem evento que vou e não tenho lucro nenhum, mas a satisfação, realização de conhecer pessoas, de estar presente e rever os amigos é muito grande, como se tivéssemos vendido muito e voltado para casa com o bolso cheio. Essa é a minha vida entrando nos eventos, hoje temos uma barraca simples, mas com coisas muito profundas, temos pandeiro, temos a canela, ferradura, temos patuás. 

Patuá é um objeto mágico que as pessoas guardam, o patuá é feito de pedras, todas simbolizando algo, o amarelo simbolizando a prosperidade, a abóbora a criatividade, o vermelho o amor, o verde a saúde e o lilás a espiritualidade. A pessoa pega o que precisa, se acha que está precisando de amor, ela pega muito, se tem muito amor, ela pega um pouquinho. Ela coloca num saquinho, eu coloco uma pedra diferente, falo alguma coisa do simbolismo daquela pedra, se pega uma pedra verde eu falo “procura trabalhar a sua saúde”, se eu pego uma amarela digo “sua prosperidade está legal?”, “o vermelho é o amor, cuide do seu amor, passe amor para as outras pessoas”.




Recentemente, antes de eu vir aqui para o Revelando, um amigo me ligou e ele havia adquirido esse patuá e quanto é cobrado nesse patuá? Eu não cobro nada, eu coloco um tachinho de cobre, a sorte não se compra, você vai simplesmente aperfeiçoar ela, a pessoa pega no tachinho de cobre e joga as moedas, se quiser colocar, coloca, ela põe o que ela quiser. E essa pessoa adquiriu um patuá, uma pessoa de posse que numa brincadeira estava passando num evento em São Paulo no Anhembi, um evento grande, rodou mais ou menos 5000 pessoas, e ele comprou.





E ele me liga “Cigano, o que eu faço”. Ele estava numa festa junto a mais três amigos, estavam voltando na madrugada, 15 minutos de carro, ele pega e fala para o motorista “Vamos voltar, temos que voltar, porque eu comprei um patuá do cigano”, e o amigo dele ironicamente brincando fala assim, “Esses ciganos são tudo louco, são tudo mentiroso, não faz nada”, e ele disse, “Se vocês não voltarem, me deixem aqui, que eu vou voltar”, e ele com tanta insistência saiu do carro e voltou realmente.



Chegando ao local, ele pegou a bolsa que tinha o patuá que ele fez, por sorte estava saindo alguém, uma amiga dele estava lá e ele pegou uma carona. No caminho, ele vê a estrada parada e quando ele vai ver, o carro dos amigos bateu e todos morreram, ele me liga desesperado “Cigano, o que eu faço?!”, eu disse a ele “O patuá serviu-lhe para o que tinha que fazer, agora você faça um buraco, agradeça a Deus e enterre ele, e quando nos encontrarmos de novo, você fará outro patuá, a sorte você já tem, você não precisa do patuá para continuar com ela, simplesmente é como se fosse uma armadura”. Eu fico feliz de ver a alegria dessas pessoas, por isso que eu estou aqui hoje no Revelando.



LB – É sua primeira vez no Revelando São Paulo?

CF – O Revelando São Paulo está sendo a segunda edição, tive a oportunidade de conhecer o Revelando em Iguape numa chuva terrível, num lugar maravilhoso, nunca tinha ido para Iguape, mas foi algo assim que transformou a minha vida. O Revelando me criou a oportunidade de rever coisas antigas nas quais muitas vezes, não que nós não acreditamos, mas não vemos mais, amizades verdadeiras, vemos o pessoal da terra trabalhando, vendo aquelas senhorinhas tecendo com tanto carinho, coisa que eu só fui ver lá no Amazonas quando tive a oportunidade de estar lá. Vendo as pessoas acordando com vontade e mesmo com aquela chuva, ainda abrindo a sua barraca e acreditando, limpando, o bem, o Revelando São Paulo foi algo que mexeu comigo.

Contato Celso Cigano: luzemagia@hotmail.com

quinta-feira, 19 de julho de 2012

No interior do cubo branco


O’DOHERTY, Brian. No interior do cubo branco: A ideologia do Espaço da Arte. Brian O’Doherty. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

A introdução e o capítulo 1 do livro “No interior do cubo branco: A ideologia do espaço de arte” do autor Brian O’Doherty aborda o surgimento do Cubo Branco, como o espaço expositivo propício para sustentar as obras modernas.

Um espaço com paredes brancas que isola todo o mundo, a vida e seus hábitos sociais e trancafia as obras nessa “igreja medieval”, local solene e sagrado. As obras agora são eternas e além do tempo, se distanciam até mesmo dos seres humanos, são divinas.

Ao mesmo tempo, vemos um percurso inverso, um momento em que o museu quis abrir suas portas e conversar com o mundo, porém algumas das instituições que optaram pela quebra do conceito “cubo branco” acabaram regredindo ao mesmo quando se depararam com a conservação das obras, que em contato com o clima, a luz e outras intempéries se deterioram mais rapidamente.

A grande questão contemporânea é como lidar com as obras cada vez mais efêmeras que vêm surgindo, decorrentes do próprio contexto atual em que o acúmulo de informações é tanto que não temos como armazenar e a própria sustentabilidade, é impossível que a situação em que vivemos não influencie esses artistas. O museu idealiza se tornar um lugar de convívio comum, de aprendizado e de lazer, de discussão, sagrado apenas por agregar num mesmo espaço a vida humana.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Galinhada de São Longuinho

Direto de São José dos Campos - SP aconteceu de 07 a 15 de Julho de 2012 o XI Revelando São Paulo – Vale do Paraíba. Enraizado no belíssimo Parque da Cidade Roberto Burle Marx, o Revelando é a oportunidade de expressão da pluralidade cultural do estado de São Paulo, onde as cidades do Vale do Paraíba e cidades convidadas de outras regiões mostram sua identidade através do artesanato, culinária, música, dança, folguedo, manifestação, religiosidade e/ou crença.



Em meio a tantas expressões, trago aqui um “dedo” de prosa com Denílson José Ferreira de 44 anos. Conhecido como “Kambukira”, o culinarista traz de sua cidade, Guararema-SP, a famosa Galinhada de São Longuinho.





Confira o bate-papo com Denílson Ferreira:



LB – Como surgiu a tradição de se fazer a Galinhada de São Longuinho?

DF – A Galinhada de São Longuinho feita em Guararema é realizada pela Comunidade da Freguesia da Escada na Festa de São Longuinho, dia 15 de Março. Para quem não conhece, a única imagem do São Longuinho no Brasil, o santo dos objetos perdidos, está situada em Guararema na Freguesia da Escada.

Na data festiva junta-se a comunidade, os comércios locais, as vizinhanças e doamos os mantimentos para estar sendo feito esta galinhada e oferecer para os devotos de São Longuinho. Eu não faço porque sempre já temos um conograma, um compromisso marcado, mas lá é feito mais pela comunidade. A galinhada começou a ser conhecida e virando um prato típico de Guararema devido à festiva dele. 

A galinhada teve início na época da construção da igreja pelos indígenas orientados pelos jesuítas, com o tempo ela foi se adaptando. Os jesuítas precisavam alimentar os indígenas, então tinham que se alimentar com o que eles tinham de mais fartura no terreiro, que seria o frango, eles faziam bem caldento, um frango cozido com bastante caldo. Como eram muitos os que comiam, eles tinham que arrumar um jeito de aumentar e foi nisso que puseram o arroz, com o arroz e o frango o volume aumentaria de quantidade e assim que foi levantada a igreja e alimentados os indígenas da época.

 Denílson José Ferreira de 44 anos, conhecido como “Kambukira”

 
LB – Como começou o culto a São Longuinho?

DF – O São Longuinho era um centurião romano, foi ele quem crucificou Cristo, para ter certeza que Cristo estava morto ele pegou a lança e o feriu, quando ele cutucou Cristo com a lança, jorrou-se um líquido, como ele tinha um problema de visão, esse líquido curou seu problema. Depois disso, ele largou de ser centurião e foi fazer sua peregrinação, virou monge e saiu pregando sua seita.

No fim de sua vida ele já tinha um problema nas pernas e foi obrigado a ser amputado, ele ficou sem perna e quando o pessoal conseguia as graças alcançadas vinham e agradeciam a ele. Por não ter as pernas, pedia para que dessem os três pulinhos em agradecimento, era a única coisa que ele pedia, já que não podia mais andar ele dizia “pela graça alcançada me dê três pulinhos”.

 Imagem de São Longuinho

LB – Na galinhada antiga usava-se a galinha caipira, como é hoje?

DF – Na época, era a galinha caipira ou frango de terreiro que nem a gente diz, porque antigamente existia muita fartura, hoje em dia já tem esse frango de granja, um frango caipira hoje demora de quatro a seis meses para chegar no ponto de abate, enquanto que um frango de granja entre 28 a 35 dias já está indo para o abate, para quem comercializa é mais rápido. 

Para a gente trabalhar como era antigamente com o frango caipira é complicado porque num evento grande você não consegue uma demanda suficiente de frango caipira. Hoje em dia, poucas famílias criam o frango caipira porque além de ser demorado, o frango caipira para ser de boa qualidade tem que estar solto e tratado com milho, nisso tem uma demora muito grande para estar crescendo. Na minha casa eu gosto de fazer com o frango caipira, mas 90% da população não gosta do frango caipira, ou nunca experimentou, ou acha que não é bom, mas até hoje quando eu posso como um frango caipira.
Galinhada de São Longuinho sendo preparada


LB – Há quanto tempo você faz a galinhada?

DF – Eu faço essa galinhada, podemos dizer profissionalmente, há 12 anos, porque nos primeiros três anos eu fazia para os amigos em reuniões na minha casa, depois eu comecei a me profissionalizar e a fazer comercialmente.


LB – Você nasceu em Guararema?

DF – Não, eu nasci no Vale do Paraíba, em Lagoinha onde morei 18 anos e moro há 27 anos em Guararema.
 
 
LB – Quem ensinou-lhe a galinhada?

DF – Eu achei interessante quando o pessoal falava da galinhada, mas eu nunca tinha comido nem visto. Numa das reuniões beneficentes que foi feita em Guararema, fui até o local, comi e gostei. Depois fui convidado para outro local, um restaurante e estavam fazendo essa galinhada, e comecei a olhar e ver como que ele fazia, eu e minha esposa, eu olhava para cá e olhava para lá, e falei “vou tentar fazer em casa”. 

Eu não tinha o equipamento apropriado para ser feito, fui até São Paulo e comprei uma tacha pequena e comecei a treinar em casa, e pensava “ele faz desse jeito, mas acho que desse jeito vai ficar melhor”, daí eu fui adaptando, cada vez que fazia eu tentava melhorar, tentava fazer um prato diferente do que eles faziam e foi aí que optei fazer só com a sobrecoxa, que para mim é uma carne saborosa, e retiro a pele porque a pele deixa muito gordurosa. Em vista do pessoal, a maioria faz com coxa e sobrecoxa, eu prefiro só sobrecoxa que na linguagem caipira é o famoso Santo Antônio e foi assim que começamos.

Durante três anos ficamos fazendo em casa, na casa dos amigos e aprendendo como é que fazia para deixar boa. Em 2007, tive a oportunidade de estar vindo no Revelando São Paulo e trazendo essa galinhada de São Longuinho, uma homenagem, porque como a galinhada é feita para ele, vamos colocar a Galinhada de São Longuinho, divulgando o santo da cidade e trazendo essa tradição de Guararema, mas a galinhada em si é do Vale do Paraíba, da região nossa, do Vale Paraibano.

 


LB – Desde o primeiro ano você traz a Galinhada de São Longuinho?

DF – Foi o seguinte, o primeiro ano que eu vim no Revelando, que foi até aqui em São José dos Campos, eu trouxe outro prato, a “paeja caipira” e foi bem aceita. Nela vão os ingredientes da roça mesmo: a sobrecoxa de frango desossada, bacon, costelinha de porco e linguiça calabresa; e fizemos sucesso. No momento eu não entendia o que era o Revelando São Paulo, me era uma novidade e vim representado a cidade, e na minha cidade nessa época tinha um restaurante que vendia muito bem esse prato, me chamaram e eu falei “vamos apresentar o prato lá”.

Nós trouxemos essa “paeja”, daí veio um comunicado do Abaçaí (Abaçaí Cultura e Arte, ONG que entre outras ações realiza o Revelando São Paulo) dizendo que esse prato não era típico, eu não entendi na época qual era o motivo, depois que eu entendi o significado, aí eu passei a representar Guararema com a galinhada, então no Revelando da Capital já fizemos a galinhada, e fui entendendo o espírito do Revelando. Na época nós pensávamos “vamos vender”, depois entendi direito o que é, no meu ponto de vista venho mostrar o meu trabalho, como é feito e divulgando nossa cidade e a gente mesmo.



LB – Além do frango, o que mais vai na sua galinhada?

DF – Em primeiro lugar, nós fazemos em queimadores, é feito todo o processo em carvão. Os ingredientes que eu uso é um azeite de boa qualidade, alho, açafrão-da-terra, coloral para poder dar uma cor para o prato, cebola, tomate, pimentão, arroz e queijo parmesão ralado, esse é o segredo da nossa Galinhada de São Longuinho lá de Guararema.



LB – Como é o preparo?

DF – Primeiro fazemos elas em tachas, o pessoal fala “tachos”, mas o certo é tachas. Como é feito no carvão nós vamos fazer no fundo dela com o azeite, a cebola, o tomate e o pimentão. Fazemos aquele refogado e vamos colocando tempero, o tempero você pode colocar a gosto, o sal com alho que seja, o coloral e o açafrão, e vai refogando.

Depois coloca a sobrecoxa para estar cozinhando, assim que a sobrecoxa estiver cozida é acrescentado o arroz pré-cozido e o queijo parmesão ralado, aí você faz aquele mexido misturando o queijo, o arroz e o frango, assim que o arroz estiver chegando ao ponto, você acrescenta o queijo parmesão por cima para poder estar fazendo o restante do enfeite, e o toque, sempre preparado com amor.



LB – Além do Revelando você faz a galinhada em outros eventos?

DF – Evento de porte grande é só o Revelando São Paulo, o restante eu faço mais festas particulares, nisso eu já montei um Buffet para mim, então todo mundo que vem no Revelando, conhece meu prato e gosta, e me convida para ir na casa deles fazer um aniversário, um confraternização de empresa e até em casamentos estamos levando essa galinhada, então o pessoal está saindo um pouco do tradicional churrasco e vindo para o nosso lado caipira. 

Praticamente todos os finais de semana estou fora de Guararema, fazendo festas em São José, São Paulo, Campinas, São Bernardo, então são várias cidades, vários clientes que a gente vai adquirindo ao longo do tempo. O Revelando foi importante por isso também, porque a partir daí eu comecei a trabalhar mais na área da culinária, cada evento que fazemos adquirimos mais amigos e mais clientes. Aos finais de semana quando precisa, o Kambukira está lá, levando a tradicional Galinhada de São Longuinho de Guararema.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

As aventuras da linha

O cartunista norte-americano Saul Steinberg nasceu em 15 de Junho de 1914 na Moldávia. Foi um cartunista famoso por suas ilustrações para o The New Yorker Magazine. Falesce em 12 de Maio de 1999.


No ano passado ocorreu sua segunda mostra no país, numa exposição na Pinacoteca do Estado de São Paulo, onde estavam expostos os trabalhos da sua fase de fama internacional, dos anos 40 e 50, onde se destacam trabalhos em que desenha a esteriotipia das madames americanas.

Steinberg foi um artista que viajou o mundo experimentando a cultura de diferentes países, captando através das linhas, detalhes da arquitetura, a fisionomia do povo e suas esteriotipias. “Desenhar é como escrever [...] Desenho para explicar as coisas para mim mesmo”, disse Saul Steinberg.

Experimentando materiais diversos, linhas de diferentes forças, formas e gestos. Convida o observador a um passeio pelo desenho, indicando uma sequência de instigância ocular que direciona e atrai sua atenção.

Fotos: http://www.saulsteinbergfoundation.org/